segunda-feira, 9 de outubro de 2017

OPINIÃO 256 - ANO XXIV - OUTUBRO 2017

Reescrevendo a história
(e a importância!) de Kardec

No mês em que se completam 213 anos do nascimento (Lyon, França, 3/10/1804) de Hyppolyte Léon Denizard Rivail, que passaria a ser conhecido sob o pseudônimo de Allan Kardec, algumas anotações sobre vida e obra desse personagem cuja história vem ganhando melhor conhecimento e mais profunda análise.


Infância em Lyon?
Se você já leu que Rivail passou sua infância na cidade de Lyon, de onde era sua família, pode ir esquecendo. Até aqui, seus biógrafos mais conhecidos tinham isso como certo. Henri Sausse, em famosa conferência, depois transformada em livro, pronunciada em Lyon, em 31 de março de 1896, quando os espíritas da cidade relembravam os 27 anos da desencarnação de Kardec, registrou: “Rivail fez em Lyon seus primeiros estudos e completou em seguida sua bagagem  escolar em Yverdum (Suíça), com o célebre professor Pestlozzi..”. A informação é abonada, também, por Zêus Wantuil e Francisco Thiesen, na obra em três volumes Allan Kardec – Pesquisa Bibliográfica e Ensaios de Interpretação (FEB -1979), dando como fonte a biografia feita por Sausse.

A festejada obra “Revolução Espírita – A teoria esquecida de Allan Kardec” (Editora MAAT/2016), do escritor paulista Paulo Henrique de Figueiredo, minucioso trabalho de pesquisa sobre a vida e, principalmente, a obra e o legado de Kardec, apurou que a família de Rivail era, na verdade, de Bourg-en-Bresse, a cerca de 80 quilômetros de Lyon. Kardec nasceu em Lyon apenas pela circunstância de ali existir uma estação de águas minerais, recomendada para a saúde fragilizada de sua mãe, Jeanne, grávida de Rivail, depois de haver perdido outros dois filhos, em circunstâncias muito dolorosas. Figueiredo classifica como “falsa” a informação presente na maioria das biografias de Kardec de que teria ele passado a infância em Lyon. Os autores foram “levados ao erro por acreditarem que o local de seu nascimento era a residência de família”.

Resgatar Kardec é o desafio espírita de hoje
O detalhe de a infância de Kardec não ter se passado em Lyon pode ser de menor significado. O livro, mais do que tudo, resgata aspectos culturais do tempo e da vida de Allan Kardec, indispensáveis à correta valorização do legado espírita produzido por aquele valoroso discípulo de Pestalozzi. Do pedagogo suíço, Rivail hauriu como transmitir aos educandos “a capacidade libertadora de aprender pelo próprio esforço”, ou seja, o sentido da “autonomia”. Seguiu construindo suas ideias à luz do pensamento de Rousseau, de Kant, de Victor Cousin e de todos os pensadores que o precederam com o “espiritualismo racional”, cenário cultural que possibilitou o surgimento do espiritismo.

Hoje, quando o conhecimento acadêmico terminou aprisionado por um incrível reducionismo materialista, obras como “Revolução Espírita” estimulam os pensadores espíritas da atualidade a um resgate coletivo dos ricos aspectos culturais que propiciaram o nascimento ao espiritismo. No âmbito da CEPA essa tem sido uma preocupação constante. Foi esse, aliás, o tom do VIII Fórum do Livre Pensar Espírita, promoção conjunta da CEPA Brasil e do Teatro Espírita Leopoldo Machado, TELMA, em maio último, em Salvador/BA, que teve, justamente, como um de seus expositores Paulo Henrique Figueiredo. A foto abaixo mostra o autor de “Revolução Espírita” (1º, a partir da esquerda), juntamente com André Luiz Peixinho, Wilson Garcia e Milton Medran Moreira, após mesa redonda compartilhada pelos quatro.


















A melhor homenagem a Kardec
 Ao tempo de Kardec, como mostra o escritor Paulo Henrique de Figueiredo, subsistiam duas interpretações acerca do homem, da vida e do universo: a do dogmatismo religioso, que já não podia se sustentar perante o conhecimento moderno; e a do materialismo, combatente ardoroso de todas as ideias religiosas. Pode-se afirmar que esse ambiente de extremismos radicais, graças a um processo dialético, acabou por gerar a síntese do espiritualismo racional, corrente que propiciou o advento do espiritismo.

Como fruto da razão, o espiritismo, não poderia se apresentar como religião. Esta reproduzia os mitos antigos da pré-ciência e, no campo da ética, aferrara-se a uma moral conservadora, autoritária, contrária e contestadora da autonomia conquistada pela modernidade. Ainda que fosse possível ler claramente na proposta de seu fundador o caráter laico do espiritismo, correntes majoritárias, desavisadas ou desatentas, terminaram por fazer dele uma nova religião.

É tempo de se corrigir esse desvio de rota. É, aliás, o único caminho possível de conduzir o espiritismo ao diálogo com a ciência e com a filosofia, como era propósito de seu ilustre fundador, aniversariante do mês. Mesmo que se credite ao caráter pacifista e tolerante do espiritismo, a ausência, até aqui, de um esforço maior nesse sentido, ele agora é inadiável, ante a clara falência das religiões de nosso tempo e a total incompatibilidade de seus dogmas com o conhecimento moderno.

Resgatar o pensamento de Kardec e inseri-lo na cultura de nosso tempo, com as atualizações que ele próprio nos recomendou fazer, passa a ser, assim, a melhor homenagem que lhe podemos prestar. (A Redação)




A laicidade do ensino nas escolas públicas
Uma religião não pode pretender apropriar-se do espaço público para propagar a sua fé. Ministro Luís Roberto Barroso, do STF.

O Supremo Tribunal Federal perdeu uma grande oportunidade de referendar o caráter laico do Estado brasileiro. A Procuradoria-Geral da República, mediante ação direta de inconstitucionalidade, questionou dispositivo da Lei de Diretrizes e Bases da Educação que permite o ensino obrigatório, embora de matrícula facultativa, do ensino religioso nas escolas públicas. Por interpretação que se tem dado àquela lei, ministros de confissões religiosas passaram a ministrar ensino confessional de religião nas escolas públicas. Para a PGR atenta contra a laicidade do Estado a docência por ministros de uma religião de seus dogmas em escolas públicas. Pretendia substituir o ensino confessional por conteúdos históricos das religiões, ministrados por professores públicos.
Apesar da forma brilhante com que o relator da ADI, Ministro Luís Roberto Barroso, acolhia, em seu voto, a pretensão do Ministério Público Federal, a ação acabou julgada improcedente pelo escore final de 5 a 6.

Mas fica para a História o lúcido voto de Barroso para quem ”cada família e cada igreja podem expor seus dogmas e suas crenças para seus filhos e seus fiéis sem nenhum tipo de embaraço. Da mesma forma, as escolas privadas podem estar ligadas a qualquer confissão religiosa, o que igualmente é legítimo. Mas não a escola pública. A escola pública fala para o filho de todos, e não para os filhos dos católicos, dos judeus, dos protestantes. E ela fala para todos os fiéis, portanto uma religião não pode pretender apropriar-se do espaço público para propagar sua fé”.

Acompanharam o voto do relator os ministros Luiz Fux, Rosa Weber, Marco Aurélio e Celso Mello. Este, o decano do STF, apresentou um verdadeiro libelo contra o ensino confessional nas escolas públicas e referendando o caráter laico do Estado.
Entretanto, falaram mais alto do que a moderna razão laica e livre-pensadora vetustas tradições que teimam em manter amarrados entre si Estado e religião. Ministros que se posicionaram contra o voto do relator, reconheça-se, não tiveram qualquer dificuldade em encontrar em velhas e surradas tradições que, antanho, se fizeram leis ou se converteram em doutrina e jurisprudência, razões para fundamentar seus votos. Convalidou-se, inclusive, acordo firmado entre a Santa Sé e o Brasil, no qual o estado brasileiro se compromete com “o ensino religioso católico e de outras confissões religiosas” nas escolas públicas.

 Onde se poderia avançar, por força de decisão soberana da mais alta Corte do país, retrocedeu-se.
É verdade que a lei não obriga o aluno a assistir às aulas de religião, cuja matrícula é facultativa. Mas, como se infere do voto de Barroso, a simples presença de ministro de uma entre tantas religiões em escola pública, ensinando seus dogmas, implica em privilégio atentatório à liberdade de crer ou de deixar de crer. Questões que dizem com crenças devem ser construídas autonomamente no íntimo do educando. A religião, ainda que respeitáveis seus propósitos, há de se circunscrever ao espaço privado do lar ou dos templos. A educação, a partir de pressupostos de validade universal, deve ter seus parâmetros regulados e fiscalizados pelo Estado. Só assim se há de tornar efetivo o princípio vigente nas Constituições de todos os países democráticos, inclusive o nosso.

 A separação entre Estado e religião (ou religiões, que, cá, proliferam tentando teocratizar o Estado), é fruto do Iluminismo, conquista que não pode sofrer retrocessos. Aqui, sofreu, com o julgamento da ADI 4439.
           




Temas de Opinião
Nós do TELMA queremos agradecer aos editores de OPINIÃO do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre que sempre nos encaminham exemplares do jornal para distribuição aos nossos colaboradores.  São atenciosos e também muito competentes na escolha dos temas presentes nas edições de cada mês. Merecem nossos permanentes aplausos.
Júlio Nogueira – Presidente do TELMA Teatro Espírita Leopoldo Machado, Salvador/BA.

Temas de Opinião (2)
Gostaria de comentar sobre a coluna de Salomão Jacob Benchaya em OPINIÃO enfocando a história e as ideias que conformam o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre. Sinto-me absolutamente identificado com esse modelo de instituição kardecista concebida como um cenário de estudo, de reflexão e de diálogo aberto, e não como uma casa de oração, de passes ou de curas psíquicas ou físicas. Enfim, uma entidade cujos membros e amigos reúnem-se em um ambiente grato, amável, sem ostentações e fingimentos.

Oportuna também a homenagem a Ian Stevenson (Opinião 254), um nome indispensável na galeria dos mais sérios e respeitáveis investigadores da reencarnação. De igual maneira, a referência a Karl Muller, personalidade notável do espiritismo do Século XX, pouco referido nas publicações espíritas, apesar de ter cumprido uma obra estupenda como estudioso e como ativo militante. Ele, mesmo tendo participado da Spiritualist Federation Internacional, sempre defendeu a tese da reencarnação e impulsionou seu reconhecimento entre os espiritualistas anglo-saxões.
Jon Aizpúrua – Caracas, Venezuela.







Parceiros espirituais
A presença este mês do beatle Paul McCartney no Brasil me faz recordar entrevista por ele concedida, lá por 2005, à revista Time sobre “conversas” que dizia manter com John Lennon desencarnado. Mais do que conversas, teriam ocorrido verdadeiras parcerias na composição de músicas entre os dois famosos artistas. McCartney revelou que, às vezes, quando está a compor, escuta a voz de John, falecido em 1980, “dentro de sua cabeça”. Chegam a trocar ideias mentalmente: “Eu penso: ok, o que faríamos aqui?” – relata – “e escuto a sua aprovação ou reprovação” aos versos ou acordes que compõe.
Aliás, um famoso compositor nosso, o gaúcho Lupicínio Rodrigues, também declarou, numa entrevista a jornal de Porto Alegre, que fazia apenas a letra de suas músicas. A melodia ele a escutava como se uma orquestra tocasse em sua cabeça.

O sonho de Yesterday
A possível paranormalidade de McCartney no processo de criação artística também estaria na origem de uma de suas mais lindas canções: Yesterday. Ele conta que a música lhe veio inteirinha num sonho. Ao acordar, sem qualquer esforço intelectual que não o da memória, viva e fresca, simplesmente a transpôs à partitura. Ele chega a afirmar não ter certeza de que a música seja sua. Logo após o episódio, saiu a perguntar a outros músicos se conheciam aquela canção que lhe chegara em sonho.

Escritores e o intercâmbio espiritual
Escritores famosos admitiram o relacionamento com inteligências invisíveis no processo da criação literária.
Alfred de Musset escreveu: “Há muitos anos que tenho visões e ouço vozes...Parece, no momento em que essa comunhão se opera, que meu espírito se desprende do corpo para falar com os espíritos que me inspiram”.
Já Coelho Neto associava seu processo de criação a experiências vividas outrora: “De quando em quando - escreveu - rompem-me na mente lembranças de outras vidas, como em vasos que contiveram essências servindo a outras, posteriormente. Aparece, por vezes, o aroma das primitivas”.
Goethe, Augusto dos Anjos, François Coppé, Olavo Bilac... Todos eles admitiram a interface espiritual no âmbito da produção literária
.
A sutileza da intuição
A mediunidade não é uma exclusividade do espiritismo e nem seu cenário único são as chamadas “sessões mediúnicas”. Ela está presente no dia-a-dia de todos. Os artistas, porque portadores de maior sensibilidade, são mais propensos ao fenômeno, e, com frequência, o admitem expressamente. Mas, as grandes conquistas da humanidade, no campo da ciência, da tecnologia, do avanço do pensamento e dos costumes, antes de se constituírem em ideias pessoais de seus inventores ou proponentes, resultam do sutil intercâmbio entre encarnados e desencarnados.

Para mim, a intuição é a mais genuína das múltiplas modalidades de intercâmbio espiritual. A sutileza de que se reveste, entretanto, nem sempre possibilita que dela se apercebam seus próprios médiuns. Muitos deles negam peremptoriamente o fenômeno do qual são autênticos agentes.






Os Vales Umbralinos
O inferno de Dante
A pedagogia do medo faz parte da estratégia de dominação e controle empregada pela Igreja ao longo de sua existência. O Inferno, destinação das almas pecadoras após a morte, deveria desestimular, pelo medo, as más ações dos crentes.

Essa ideia de um Deus controlador e punitivo alimentada pela tradição judaico-cristã acabou sendo transferida, atavicamente, para o espiritismo.

A narrativa do espírito André Luiz, pela psicografia de Chico Xavier, acerca do Umbral encaixou-se perfeitamente como um inferno espírita, felizmente transitório, diante do pluralismo das existências que orienta para a necessidade do retorno do espírito a novas experiências corpóreas.
Em 1954, a FEB lançou a obra “Memórias de um Suicida”, psicografado pela médium Yvonne do Amaral Pereira, descrevendo os atrozes sofrimentos do autor-personagem Camilo Cândido Botelho, pseudônimo do poeta suicida português Camilo Castelo Branco, numa região do mundo espiritual chamada “Vale dos Suicidas”.

Posteriormente, em 2005, o livro “Mais Além do meu Olhar”, de autoria do Espírito Luiz Sérgio, entre diversos temas relacionados à juventude, revela a existência do “Vale dos Tatuados” (!?) que acolhe a turma que danificou o perispírito com tatuagens aplicadas no corpo físico.
Finalmente, em 2015, outra obra psicografada – O Vale dos Espíritas – ditada pelo Espírito Atanagildo, descreve os sofrimentos de espiritualistas que, embora conhecedores de verdades espirituais, negligenciaram seus deveres e, após a desencarnação, são recebidos em uma comunidade de sofrimento e regeneração que dá o nome à obra.

Presumo que, nessa marcha – se é que já não o foram -, logo serão descobertos os “vales” de abortistas, de prostitutas, de estupradores, de traficantes e de políticos corruptos, denotando uma estranha política punitivo-segregacionista das leis divinas.

Esse tema está a merecer mais cuidadosas reflexões e pesquisas dos estudiosos espíritas, face às repercussões geradas junto à coletividade. Talvez, a intenção dos Espíritos seja alertar os leitores sobre as consequências de atos contrários à lei natural, mas o que acontece, na prática, é uma generalização descabida e desarrazoada que beira a fantasia.

Narrativas de experiências individuais se transformam em sentenças coletivas do tipo: todo suicida vai para o vale dos suicidas; todo dirigente espírita faltoso vai para o vale dos espíritas; todo tatuado, quando morrer, vai para o vale dos tatuados. Qual a vantagem educativa da segregação para a reabilitação de espíritos? Um exagero e um absurdo!

Há uma excessiva rigidez nas punições impostas segundo essas descrições, como se o medo impingido aos leitores pudesse levá-los a uma renovação de atitudes, tal como pretendido pelo cristianismo das igrejas.

Uma falsa renovação, portanto. Algo que o espiritismo não endossa.






Hermínio C. Miranda – Pesquisador espírita brasileiro (1920/2013)
“O fenômeno mediúnico não acontece sem o componente anímico, que é da essência do processo. Para suas manifestações, os espíritos precisam de certa espécie e quantidade de energia de que somente o ser encarnado dispõe. A comunicação entre as duas faces da vida, ou seja, entre espíritos (desencarnados) e seres humanos (encarnados), transita por uma ponte psíquica que tem de apoiar uma cabeceira na margem de lá do abismo e a outra no lado de cá, onde vivemos nós”.
(Do livro “Diversidade dos Carismas – Teoria e Prática da Mediunidade”)






Alcione, retornando de Rafaela/AR:

“4º Encuentro de CEPA en Argentina
foi um sucesso!”.

A presidente da CEPA, Jacira Jacinto da Silva, a ex-presidente da CEPABrasil, Alcione Moreno, compuseram a delegação brasileira que participou do “4º Encuentro de CEPA en Argentina”, dias 15 e 16 de setembro, em Rafaela.

As duas brasileiras foram responsáveis pela conferência conjunta de abertura (foto), na noite de 15, quando desenvolveram o tema “Nuestra mirada sobre el adicto a las drogas”, com base no trabalho que ambas realizam frente à Fundação Porta Aberta (São Paulo), entidade que tem como foco a capacitação e a inserção social de dependentes químicos e alcoólicos.

O trabalho de Jacira e Alcione impactou fortemente o auditório (foto). O vice-presidente argentino da CEPA, Gustavo Molfino, classificou o trabalho com dois adjetivos: “Excelente e comovente”. Espíritas argentinos, motivados pelo trabalho, cogitam criar em seu país uma entidade nos mesmos moldes da Fundação Porta Aberta.

O Encontro prosseguiu no sábado, com duas oficinas, uma sobre Diversidade, e a outra sobre Imediatismo. O trabalho foi conduzido por espíritas ainda jovens (de 30 a 40 anos). Segundo Alcione, as oficinas estiveram “muito focadas na psicologia e no autoconhecimento, a partir de experiências individuais e com base nos pressupostos espíritas, e envolveu várias dinâmicas, durante todo o dia. Ao final, os grupos elaboraram perguntas que foram respondidas pelos espíritos em reunião mediúnica”.

Aureci em prosa e verso
Atuante trabalhador espírita gaúcho, Aureci Figueiredo Martins (Instituto Espírita 3ª Revelação Divina – Porto Alegre), acaba de lançar o livro “Bem-Aventurados os que duvidam” (Editora Evangraf – Porto Alegre).

A obra, em 80 páginas, comenta, com objetividade, aspectos fundamentais da doutrina espírita. Poeta, Aureci abre cada capítulo do livro com uma quadrinha e acrescenta aos comentários em prosa alguns poemas também de sua autoria, complementando as análises doutrinárias, feitas sob rigorosos critérios de racionalidade e lógica.

“Bem-Aventurados os que duvidam” pode ser adquirido ao preço de 10 reais na livraria do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre – CCEPA (Botafogo, 678)

CIMA em atividade plena, mesmo na crise
A difícil situação política e social vivida pela Venezuela afetou, durante o último mês de agosto, as atividades de CIMA Movimento Cultural Espírita, de Caracas, Venezuela. Graves incidentes ocorridos no período obrigaram a tradicional instituição, presidida nacionalmente pelo ex-presidente da CEPA, Jon Aizpúrua, a suspender temporariamente suas reuniões, na Seccional Caracas, por questões de segurança de seus participantes.

Mesmo perdurando a crise, o CIMA Caracas está, agora, em plena atividade. Sua diretora, Yolanda Clavijo, enviou à redação de Opinião a seguinte programação de conferências que está sendo cumprida durante este mês de outubro, pela instituição.





















A revista Aventuras na História, da Editora Abril, em sua edição n.132 publicou como matéria de capa a reportagem “Allan Kardec e o espiritismo, uma religião bem brasileira”.

A reportagem, com texto de Tiago Cordeiro, começa resgatando este fato histórico:
“Às 22h30 de 17 de setembro de 1865, apenas oito anos depois da fundação oficial do espiritismo na França, foi realizada em Salvador a primeira sessão da doutrina no Brasil, liderada por um jornalista, Luís Olímpio Teles de Menezes. No mesmo ano, surgiu o primeiro centro do país. Em pouco tempo, a visão científica, filosófica e religiosa de Allan Kardec se transformaria em uma religião tipicamente brasileira, divulgada por intelectuais nas nossas maiores cidades. Anos antes de ganhar as massas com Chico Xavier, os seguidores de Kardec já tinham uma nova capital, nos trópicos”.

Os bons índices socioeconômicos dos espíritas no Brasil
A matéria destaca que, desde seus primórdios no Brasil, o espiritismo se tornou uma “religião das classes média e alta”, e acrescenta estes dados: “Atualmente, o trabalho iniciado por Kardec tem 13 milhões de seguidores no mundo. A maioria, 3,8 milhões, está no Brasil. Nossos espíritas têm os melhores indicadores socioeducacionais dentre os fiéis de todas as religiões praticadas no país – 31,5% deles têm nível superior completo, segundo o IBGE. Entre 2000 e 2010, eles saltaram de 1,3% da população para 2%”.

Místicos x cientistas
A matéria reporta-se aos objetivos buscados pelo fundador do espiritismo: “Kardec foi um dos pioneiros a propor uma investigação científica, racional e baseada em fatos observáveis, das experiências espirituais”. Faz longo histórico sobre as duas tendências que, apesar da posição de Kardec, logo se apresentaram no desenvolvimento do espiritismo, primeiramente na Europa: a dos que o interpretavam como uma ciência e os que preferiam tomá-lo como religião.

No Brasil, especialmente, se oporiam as duas correntes, dos místicos e dos cientistas. Destaca o esforço de Afonso Angeli Torteroli que, liderando os científicos, organizou o I Congresso Espírita Brasileiro, em 1881. “Mas foi o aspecto religioso que venceu” - registra a reportagem – “Por dois motivos: o lado religioso funcionava melhor para uma população ligada a um cristianismo que, em geral, convivia tranquilamente com curandeiros, benzedeiras e cartomantes” e porque “a preocupação científica e filosófica não tem o mesmo “appeal” para nós como tem o lado religioso-ritualístico”.
Para ler a íntegra da reportagem: http://www.ameuberlandia.org.br/?p=7999

Debate sobre Mediunidade
abre Congresso Andaluz
A presidente da AIPE – Asociación Internacional para el Progreso del Espiritismo, Rosa Diaz envia correspondência convidando para a XXI Jornada-Debate, com o tema Sociedades Espíritas e Mediunidade, a ocorrer em 27 deste mês, em Huelva, Espanha, como atividade preliminar ao VIII Congresso Andaluz de Espiritismo, a ser inaugurado em 28/10.

A Jornada está a cargo de dois integrantes de CIMA, Movimento de Cultura Espírita, de Caracas, Venezuela: Yolanda Clavijo (foto), com o tema “Ética da Mediunidade” e Vicente Ríos, que abordará “Regulamento das sociedades espíritas”.
Nos dois dias seguintes, o Congresso Andaluz desenvolverá temas ligados, todos eles, à reencarnação, sob o lema “Nascer, Morrer, Renascer e Progredir”, com expositores de várias regiões da Espanha e Portugal.

A programação completa e informações sobre o evento podem ser acessados em: http://www.andaluciaespiritista.es/2017/05/viii-congreso-andaluz-de-espiritismo.html

XVIII Semana Espírita de Osório
celebra O Livro dos Espíritos
 Os temas fundamentais de O Livro dos Espíritos, no ano de seu 160º aniversário, serão abordados em quatro conferências que compõem a XVIII Semana Espírita de Osório, promovida pela Sociedade Espírita Amor e Caridade, daquela cidade gaúcha:

Dia 23/10, 20h – Deus, o Universo e a estrutura da Natureza - com Moacir Araújo Lima (Porto Alegre);
Dia 25/10, 20h – O Ser: sua imortalidade e comunicabilidade - com Milton Medran Moreira – Porto Alegre;
Dia 26/10, 20h – As Leis Morais e as relações – com Gladis Pedersen de Oliveira – Porto Alegre.
Dia 28/10 – 15h – O Inquietante problema do futuro do Ser – com Arivelto B. Fialho – São Leopoldo.



A Lenda do Chico/Kardec
Eugenio Lara, arquiteto e designer gráfico – São Vicente/SP.

"Quando a lenda se torna realidade, publica-se a lenda".
(Frase do editor do jornal “Shinbone Star” ao senador Ransom Stoddard, personagens do filme “Quem Matou o Facínora” (1961), de John Ford)

Há lendas de todos os tipos: lendas urbanas, religiosas, folclóricas, históricas. Mas lenda espírita é algo que não havia imaginado. Vejo que isso existe mesmo e, amiúde, surge e ressurge na imprensa espírita, na internet, no cotidiano do movimento espírita. Oradores, médiuns e dirigentes espíritas são os grandes mentores desse tipo de coisa. Mas afinal, o que é uma lenda? E lenda espírita, existe isso?
Lenda é uma história fantasiosa, algo bem próximo do mito, parte integrante da tradição de todos os povos. Da lenda para a realidade, a distância é abissal, incomensurável. Quem convive com o poder e o vivencia sabe muito bem disso. Criam-se lendas, mitos, coisa folclórica a todo instante. A versão distorcida da realidade vira lenda. Uma ideia errônea, uma interpretação deturpada, enviesada dos fatos, se for sistematicamente repetida, de modo sutil ou insidioso, com o tempo acaba adquirindo o status de verdade. A mídia mal-intencionada usa e abusa desse recurso e os fofoqueiros de plantão sabem bem como isto funciona. A imprensa marrom sobrevive às custas desse tipo de expediente.
O mito e a lenda, em seu sentido mais nefasto, surgem quase como a fofoca, o mexerico, a maledicência, a informação plantada, o factóide. É a filtragem criada pelo imaginário. Um processo complexo que desafia antropólogos e historiadores.

Já a lenda legítima, que se desenvolve ao longo do tempo, tanto quanto o mito, esta sim é coisa séria. Historiadores, sociólogos e antropólogos, notadamente os estudiosos da religião, procuram decifrar os mitos e lendas de determinada civilização. O formato mitológico, mítico de interpretação da realidade, serve então de estudo na montagem de um quebra-cabeça que os aproxime da verdade dos fatos. Trata-se de um objeto de estudo fundamental para o entendimento de nossa própria história.
Enquanto que a lenda inventada, tatuada, concebida e gestada na mente de pessoas fascinadas, sedentas de poder e de glória, de legitimidade, torna-se perigosa, desprezível, porque pouco tem de inocência, de boa intenção. Desse tipo de gente, o umbral está cheio...
Há algum tempo, uma nova lenda espírita ressurgiu no seio do espiritismo. A de que Chico Xavier tenha sido a reencarnação de Allan Kardec, confirmando assim a profecia de seu então protetor, o espírito Zéfiro, que afirmou ao fundador do espiritismo, em 1857, que ele reencarnaria no século vindouro, o século 20.

Não há indícios de que Rivail tenha reencarnado no século passado. Todavia, a quantidade de candidatos a esse posto é enorme. Eu mesmo já conheci uma meia dúzia dessa gente mentirosa e arrogante, que se acha o Druida de Lyon numa nova edição, a fim de granjear para suas ideias obtusas o status de filosofia respeitável. E para não ficar somente no lero-lero, cito duas personalidades não muito conhecidas. Uma delas surgiu no ABC e chama-se Osvaldo Polidoro (1910-2000), o criador do chamado Espiritismo Divinista. Toda sua doutrina se alicerça na lenda de que Polidoro tenha sido a reencarnação de Kardec. O que Herculano Pires já escreveu sobre essa personalidade atormentada foi suficiente. Não é necessário perder tempo com ela. Cito apenas como informação.

Um outro caso, surgido em Niterói-RJ, é o do filho de Kardec. Sim, isso mesmo, o filho de Allan Kardec reencarnado. Sua primeira obra, dentre outras medíocres e inúteis, denomina-se Eu Conheci Allan Kardec Reencarnado. Trata-se de Erasto de Carvalho Prestes, a quem certa vez recebi em minha casa e participou de algumas edições do Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita. Ele considera seu pai como o próprio Kardec, que deixou uma obra ainda por ser publicada. E o será, segundo ele, lançada no momento propício, conforme a vontade do “plano espiritual superior”...

 Existem outros kardequinhos candidatos à notoriedade, à legitimidade artificial, criadores de doutrinas, de sistemas e que, acobertados por uma falsa humildade, se escondem por trás de supostas revelações de espíritos tão confusos e pseudossábios quanto eles. Essa de que o Chico seja Kardec é de doer. Se o jornalista Boris Casoy fosse espírita ele bradaria o seu bordão: “isto é uma vergonha!”.
Existem outros
Curiosamente, em torno dessa polêmica, poucos ousaram perguntar ao Chico se ele era realmente o Kardec. E quando perguntaram, negou veementemente: “Não, não sou. Não tenho nenhuma semelhança com aquele homem corajoso e forte”. Esse testemunho encontra-se em um livro escrito pelo estudioso e escritor espírita, Wilson Garcia, intitulado Chico, Você é Kardec? que praticamente esgota o assunto e coloca uma pá de cal nessa contenda ridícula.

Nessas situações, pouco importam os fatos. Pouco importa se Chico Xavier negou ser o Kardec reencarnado. Pouco importa se a lenda é mais interessante do que o fato. Já que é assim, fiquemos com a lenda. É o que essa gente faz.

Por ignorância ou interesse suspeito, os espíritas foram, ao longo do tempo, abraçando lendas e mitos em torno de Kardec, dos espíritos e do espiritismo. É um processo sociológico e antropológico complexo de se apreender. Todavia, quando alguém tenta demonstrar o contrário da lenda ou do mito, o que há é a marginalização, o despeito ou mesmo a perseguição silenciosa e “fraterna”, tudo em nome da religião, do evangelho, do amor e da caridade, e que assim seja...

Reconheço que as palavras nesse breve artigo são incisivas. Mas para lidar com mitos e lendas inventadas é necessário mesmo ser um pouco áspero. Senão essa coisa cria raiz, começa a germinar e se não cortarmos a cabeça logo de cara, o que teremos é um novo Ovo da Serpente. Aí então será tarde demais.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

OPINIÃO - ANO XXIV - Nº 255 - SETEMBRO 2017

A pergunta que não quer calar:
O Movimento Espírita
está envelhecendo?
O comunicador espírita Ivan Franzolim, administrador de empresa (São Paulo/SP) acaba de divulgar os resultados de sua 3ª edição da Pesquisa para Espíritas, um retrato das condições sócio-econômicas dos brasileiros que se declaram espíritas.

Envelhecimento, um dado que preocupa
A pesquisa se utilizou de formulário eletrônico do Google, buscando alcançar os espíritas de todos os estados brasileiros. Foram entrevistadas 2.616 pessoas. Entre outros muitos dados, formulados em 44 questões, a sondagem levantou a idade de frequentadores, trabalhadores e dirigentes de Casas Espíritas no Brasil.

O resultado apurado mostrou que a faixa etária de 51 a 60 anos é a de maior expressão, somando, entre os entrevistados, 779 pesquisados, o que, no universo da pesquisa, representa 29,8% do público ouvido. Expressiva também é a faixa entre 61 e 70 anos: 13,3%, contra apenas 1,6% da faixa de 15 a 20 anos, e 9,1% entre 21 e 30 anos. Veja os números, no quadro a seguir:




Geografia e perfil dos espíritas
Para Ivan Franzolim, responsável pela pesquisa, esses dados são preocupantes. Segundo registrou em seu blog - http://franzolim.blogspot.com.br –, onde também está publicada a íntegra da pesquisa, “há quase 30 anos, desde o censo de 1991 do IBGE, estamos acompanhando que os espíritas estão envelhecendo, que há pouca renovação com entrada de jovens, que não conseguimos atrair o público das classes D e E (a pesquisa também mostra que o espiritismo tem a maioria de seus adeptos entre as classes A e B) e que vários estados do norte e nordeste possuem a menor quantidade de espíritas e ainda estão diminuindo”.  “A pergunta que não quer calar”, segundo Franzolim, é: “o que as instituições espíritas fazem a respeito? ”.




Desafios de nosso tempo
É possível que se igrejas, clubes de serviço, instituições maçônicas e até movimentos jovens que, no passado, foram significativos, como escotismo e bandeirantismo, fizerem semelhante pesquisa, os resultados serão os mesmos. É um fenômeno do nosso tempo. Jovens fogem de instituições formais. Veem-nas como “caretas” ou “quadradas”.

De outra parte, é provável que a baixa frequência dos jovens nos centros espíritas e a própria redução de brasileiros que se declaram espíritas não correspondam a uma queda na aceitação das ideias fundamentais espíritas. Ao contrário, o que se pode notar é um interesse crescente, tanto nos meios seculares como religiosos, em torno de propostas como a imortalidade do espírito, sua comunicabilidade, reencarnação, etc. Bom termômetro para essa averiguação está na Internet, em suas redes sociais, nos blogs pessoais e institucionais, onde se discutem esses temas. Grupos internáuticos cujo objetivo é a discussão de temas espíritas têm recebido a contribuição predominante de jovens. É verdade também que o perfil dos participantes envolve majoritariamente integrantes das classes A e B, com boa escolaridade, o que coincide com o perfil tradicional de frequentadores e dirigentes de instituições espíritas.

A aceitação das ideias espíritas, porque integrantes estas do que Kardec denominou “leis naturais”, não está subordinada à adesão ao movimento espírita ou à frequência regular aos popularmente chamados centros “kardecistas”, suas uniões e federações.

Sob essa ótica, pode-se até admitir que, num futuro breve ou remoto, se extinga o movimento espírita ou que o espiritismo se torne apenas uma referência histórica, circunscrita no tempo e espaço. Nem por isso suas ideias terão perecido. Poderão, inclusive, se fortalecer e se universalizar, como era, aliás, o sonho de Kardec.

Está aí um jeito mais otimista de se analisar a mesma questão que a outros preocupa. Isto não exime o movimento espírita de se atualizar, de se expressar de forma mais compatível com nosso tempo, para que, de maneira mais eficiente, a proposta filosófica espírita, sua visão de homem e de mundo, cheguem a pessoas de todas as idades e segmentos socioculturais. Parece-nos que a grande carência do movimento espírita está na forma de se comunicar e na sua incapacidade de interagir com os grandes movimentos de ideias da atualidade. (A Redação)




A vida pede coragem
Devemos construir diques de coragem para conter a correnteza do medo. Martin Luther King
A coragem e a esperança de homens e mulheres de Barcelona cunhou a expressão por eles repetida em coro, nos dias seguintes ao ato terrorista perpetrado em La Rambla: “No tinc por” (“não tenho medo”, no idioma catalão).

É uma disposição da alma, provinda da crença no humanismo e na civilização. No entanto, não reflete o estado psicológico da maioria dos cidadãos do Planeta. É a expressão de um desejo que, certamente, há de se impor, mas que não corresponde, hoje, à realidade de um mundo perplexo diante da repetição sistemática de acontecimentos como o de 17 de agosto.
O mais insidioso nos atos de terrorismo e o que mais dificulta seu combate é a imprevisibilidade. Não se pode prever que um avião recém-decolado do aeroporto de Nova York, cercado de todos os esquemas de segurança, se estatele, por deliberação de seu condutor, nas torres de um edifício. É totalmente imprevisível que um veículo circulando pelas ruas de Paris ou de Barcelona, de repente, abandone a via e invista contra multidões, no passeio.
A repetição de acontecimentos dessa natureza é, sim, causa de justificado medo. Da mesma forma, em países como o Brasil, os atos de violência extrema que ocorrem todos os dias nos grandes aglomerados humanos, dominados pela criminalidade que despreza a vida, desrespeita o patrimônio e atenta contra a dignidade de milhares de inocentes, fazem crescer o temor de se andar na rua, de se conviver normalmente com familiares, com vizinhos, com amigos ou com desconhecidos, em locais destinados à privacidade ou ao saudável exercício da convivência social.
É natural e humano que tudo isso cause medo!  É o medo gerado pela imprevisibilidade de tais comportamentos. É o medo que atesta não ter a civilização alcançado toda a humanidade. Parcela desta demora-se na barbárie. Não está convencida de que o respeito a outras culturas, a outras crenças, a outros estilos de vida, ou mesmo a outros estágios socioeconômicos, é imprescindível para que o mundo todo tenha paz.
É preciso coragem para viver num mundo assim, mesmo admitindo que o mal é exceção. Justamente por excepcional, ele surpreende e nos apanha desprevenidos.
À luz do pensamento espírita, convém não esquecer que vivemos no mundo por nós mesmos construído. Que mentes enfermas pelo ódio não teriam chegado a esse grau de insanidade se houvessem recebido, ontem, um mínimo de atenção, dispensando-se-lhes a ajuda intelectual, moral e material ou propiciando-lhes uma ordem social e política mais justa. Esse mesmo pensamento nos convida, neste momento de tantos conflitos, a trabalhar em prol de uma sociedade mais justa, mais equânime, mais ética, enfim.
Uma civilização não pode ser medida apenas por seus avanços materiais, produzindo bem-estar a seus partícipes. Deverá fundar-se em fortes sentimentos de solidariedade e de comprometimento com os companheiros de jornada situados em patamares de evolução inferiores. A humanidade é uma só e estamos uns comprometidos com os outros. Esse é o grande desafio que os mecanismos da justiça cósmica impõe a um mundo onde “provas e expiações” são apresentadas figurativamente como degraus de evolução no rumo da plenitude.
Assim, o que hoje nos parece imprevisível talvez ontem pudesse ser prevenido. Mas a caminhada prossegue. Administrar convenientemente, agora, esses conflitos, extirpando o ódio e reafirmando os nobres sentimentos de solidariedade universal, com critérios de justiça para todos é a garantia de um mundo melhor amanhã.
Há muito que ser feito para aprimorar a chamada civilização judaico-cristã. Pouco a pouco, ela foi privilegiando o ter em detrimento do ser. Esse é o resultado mais imediato do trabalho, do desenvolvimento da inteligência e da criatividade, é certo. Mas, como consignou Kardec, comentando a resposta dos espíritos à questão 793 de O Livro dos Espíritos, “à medida que a civilização se aperfeiçoa, faz cessar alguns dos males que gerou, e esses males desaparecerão com o progresso moral”.
Diante de tudo, uma pergunta se impõe: até que ponto concorremos para gerar os males dessa onda de violência que nos apavora? E sugere outra: de que forma, senão com a implementação de novos patamares éticos libertos do orgulho e da soberba, poderemos contribuir para que esses males sejam varridos do Planeta que elegemos para viver e que continuará servindo de morada a nós próprios e a nossos pósteros?
Tristemente, concluiremos no sentido de que somos também os responsáveis pelo medo que nos enferma a alma e que precisamos de muita coragem para tratar de suas causas.






Opinião de agosto
Excelente a edição nº 254 do periódico do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre. Felicitações ao nosso amigo Milton Medran pela qualidade e profundidade dos artigos que contém. Quero também registrar que, na edição anterior (julho/2017), me impactou especialmente o editorial “Longo, mas não interminável”, uma análise acertada e com grande categoria moral. Obrigado, Milton, por continuar com essa importante tarefa periodística.
Abraços aos amigos do CCEPA
Gustavo Molfino  - Rafaela/AR.

Espiritismo e Reencarnação
O conhecimento espírita, de que trata o editorial “Espiritismo e Reencarnação” (agosto/2017), é muito bom para nos fortalecer moralmente.
Lucy Regis – Santos/SP.



           

Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho
Sempre que se criticam obras mediúnicas trazidas por médiuns respeitáveis, como Chico Xavier e outros, há quem torça o nariz. Médiuns com esse estofo moral não seriam suscetíveis de serem enganados por espíritos mistificadores ou pouco conhecedores da matéria sobre a qual escrevem. 
Nesse terreno, o caso mais emblemático é o livro “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”, de autoria espiritual de Humberto de Campos. A obra foi tomada pela chamada “casa mater” do espiritismo brasileiro como relato de um acontecimento real, ocorrido em dimensões espirituais, tendo como personagem principal Jesus Cristo, vagando pelo espaço, rodeado de serafins e querubins e elegendo o Brasil como sede de seu futuro reinado na Terra.
 A crítica é no sentido de que a estória é totalmente inverossímil, à luz da racionalidade espírita.
Significado e verossimilhança
Nem por ser inverossímil, “Brasil, Coração do Mundo e Pátria do Evangelho” deixa de ter significado ou valor:
Significado, como expressão de uma cultura milenar. No caso, a cultura judaico-cristã, que vê o mundo como uma criação divina, conspurcada pelo pecado, e Jesus como seu salvador, entronizado em um determinado lugar da Terra e materialmente representado por uma instituição à qual delega poderes de representação pessoal e redentora;
 Valor, como manifestação artístico-literária, captada e produzida pelo escritor brasileiro Humberto de Campos. Ele que, enquanto encarnado, foi brilhante na arte do conto e da crônica, no mudo espiritual seguiu valendo-se da ficção literária. Lá, tomou como inspiração as crenças cristãs, sob a roupagem da “religião espírita”, com a qual, ao que parece, o autor só teve contato depois de desencarnado.
Maria Madalena
Faço essa digressão para registrar que o autor espírita José Lázaro Boberg, em sua recente obra “O Evangelho de Maria Madalena”, teve que enfrentar, e o fez com competência, essa tarefa de separar o mito cristão da provável realidade histórica, mesmo que o mito tenha sido abonado por obras psicográficas espíritas. Humberto de Campos e Emmanuel, em escritos ditados a Chico, retrataram Maria Madalena como “a pecadora arrependida”, a mulher de vida devassa que só se regenerou depois de conhecer Jesus. Os evangelhos canônicos realmente permitem conceituá-la assim, e interpretações eclesiásticas chegaram a defini-la como uma prostituta regenerada. Já o evangelho gnóstico, comentado por Boberg, mostra a mulher de Magdala como figura de raras virtudes intelectuais e morais, cuja vida e cujas ideias estiveram sempre em sintonia com Jesus, de quem foi discípula e companheira muito querida.

A sacralização de médiuns e espíritos
Boberg se posiciona em favor de uma versão distinta daquela assumida pelos interlocutores de Chico Xavier, sem desmerecê-los ou enquadrar suas obras como mistificação. Reconhece, sim, que médiuns ou espíritos são humanos e, assim, deles não se deve esperar, como alertou Kardec, “nem a plena sabedoria, nem a ciência integral”. Encarnados ou desencarnados, os espíritos movimentam-se por longos estágios em cenários psíquicos compatíveis com as crenças e costumes que criaram raízes em suas almas.
Diferentemente das religiões, o espiritismo, pela ferramenta da mediunidade, propôs-se ao intercâmbio entre a humanidade encarnada e desencarnada e não com deuses. A sacralização de médiuns ou espíritos é, ainda hoje, um dos problemas mais sérios do meio espírita.






A partir desta edição, Salomão Benchaya opinará sobre assuntos doutrinários e da prática espírita.

Sobre os Anjos da Guarda: Livre-se deles!
Allan Kardec trata dos anjos da guarda nas questões 489 a 521 de O Livro dos Espíritos. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. XXVIII, ele distingue o “anjo guardião” um “guia principal e superior” dos “espíritos protetores e familiares, guias secundários”.
O fundador do Espiritismo poderia ter evitado o uso da expressão “anjo da guarda”, tanto quanto “céu” e “inferno” pela confusão que se estabelece com os conceitos do catolicismo. No caso em foco, ainda estabelece uma hierarquia da equipe protetora para cada indivíduo. As 32 questões do LE esmiúçam as várias situações e condições de atuação desses personagens junto aos seus protegidos.
Não pense o leitor que não acredito na existência de espíritos amigos que nos acompanham e ajudam no nosso processo de aprendizagem durante a encarnação.
Questiono, sim, o tratamento que tanto Kardec como as lideranças espíritas dão ao tema, estimulando a submissão e a dependência dos encarnados a forças externas. Difunde-se a crença, oriunda da Igreja católica de que o Homem nada vale, é um pecador incapaz de resolver-se sem auxílio de terceiros. Sempre a dependência, a submissão e a reverência a uma pretensa vontade superior, características dos estágios primitivos de nossa evolução.
Isso parece contrariar a natureza libertadora da Doutrina Espírita. A sujeição do indivíduo ao beneplácito divino através de intermediários é um entrave ao seu crescimento pela inércia à espera de uma intervenção estranha às possibilidades que cada um deve desenvolver.
É sabido que a Educação é coroada de êxito quando o educando atinge a maturidade e torna-se independente. O verdadeiro Mestre só se dá por satisfeito quando o discípulo torna sua presença e atuação dispensáveis.
Então, não teria chegado o momento de se rediscutir o tema dos anjos da guarda para escoimar os conceitos espíritas da influência católica que ainda permeia as opiniões dadas pelos Espíritos e pelo próprio codificador nas obras fundadoras?
Talvez, não seja tão descabida a proposta contida no título deste comentário. Claro, que não da forma arrogante como, propositadamente, coloquei. Continuo achando válido recorrer ao auxílio de amigos que, certamente, os temos no mundo espiritual, em situações especiais. Mas eles, com certeza, se forem mesmo espíritos superiores, ficarão felizes por verem nosso crescimento a tal ponto de podermos dispensar a sua tutela.
Ademais, é muito egoísmo de nossa parte mantermos esses amigos aprisionados a um compromisso que assumiram para conosco, quando, livrando-nos deles, permitiremos que também prossigam sua caminhada evolutiva.
Um tema que merece ser atualizado!






Allan Kardec - Fundador do Espiritismo (1804/1869)
“O emprego dos aparatos exteriores do culto teria idêntico resultado: uma cisão entre os adep­tos. Uns terminariam por achar que não são devi­damente empregados, outros, pelo contrário, que o são em excesso. Para evitar esse inconveniente, tão grave, aconselhamos a abstenção de qualquer prece litúrgica, sem exceção mesmo da Oração Do­minical por mais bela que seja”.

(Em “Viagem Espírita”, 1862 – “Instruções particulares dadas aos grupos em resposta a algumas das questões propostas”).






III Encuentro Iberoamericano será em Vigo
Com o tema “Cultura Espírita: Uma Contribuição ao Progresso da Humanidade”, O III Encontro Espírita Ibero-americano acontece em Vigo, Galícia, Espanha, no período de 28 a 30 de abril de 2018.
Uma delegação de brasileiros está sendo organizada para participar desse evento que é uma iniciativa conjunta da CEPA – Associação Internacional de Espiritismo, e AIPE – Associação Internacional para o Progresso do Espiritismo.
A presidente da CEPA, Jacira Jacinto da Silva, juntamente com Juan Antonio Torrijo, coordenador da Comissão Organizadora, ultimam a programação, que contará com exposições temáticas de vários intelectuais espíritas da Espanha, Portugal, Brasil, Argentina, Venezuela, Porto Rico e outros países da América e da Europa.


Homero visita CCEPA
O presidente da Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA – CEPABrasil, Homero Ward da Rosa, visitou, dia 26 de agosto último, o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre – CCEPA. Participou da reunião do grupo que realiza, semanalmente, o denominado “estudo analítico de O Livro dos Espíritos” e, na sequência da tarde, reuniu-se com diretores e colaboradores da instituição, na Oficina que trata das questões administrativas e associativas do CCEPA.
Na oportunidade, Homero referiu que realizava aquela visita de cortesia para agradecer a colaboração recebida em duas gestões seguidas na presidência da CEPABrasil. Destacou especialmente o apoio que sempre teve da Casa e de seu órgão de divulgação – CCEPA OPINIÃO -, participando, promovendo e divulgando os eventos realizados no período. O presidente da CEPABrasil expressou especial gratidão ao companheiro Maurice Herbert Jones, colaborador exímio e sempre pronto a colaborar na criação de peças gráficas de divulgação e respectiva veiculação nos meios eletrônicos.
Homero deixa a presidência em novembro próximo. Por ocasião do XV Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita, em Santos, de 2 a 4 daquele mês, ocorre a Assembleia Geral da CEPABrasil para eleger e dar posse à nova diretoria da entidade.
Na foto, Homero com dirigentes e colaboradores do CCEPA.

Ainda é tempo de inscrever-se
para o XV SBPE
O tradicional Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita, criação de Jaci Regis, realizado de 2 em 2 anos pelo Instituto Cultural Kardecista de Santos – ICKS – acontece de 2 a 4 de novembro, na antiga sede do ICKS, hoje Colégio Angelus Domus (Av. Francisco Glicério, 261, Santos/SP).
Doze pensadores, sendo um deles argentino, inscreveram trabalhos a serem expostos e debatidos por todos os participantes. Em nossa próxima edição, detalharemos a programação.
Ainda é tempo de fazer sua inscrição para participar. E-mail de contato: ickardecista1@terra.com.br .


Em Rafaela/AR Encontro da CEPA
O 4º Encontro da CEPA na Argentina acontece dias 16 e 17 deste mês, na cidade de Rafaela. Com uma conferência pública de abertura, seguida de Oficinas de Participação Ativa tratando dos temas “A Era do Imediatismo” e “Diversidade”, numa abordagem espírita, o Encontro terá a presença da presidente da CEPA e seu diretor administrativo Jacira Jacinto da Silva e Mauro de Mesquita Spínola (São Paulo/Brasil).

O Evangelho de Maria Madalena
A redação deste jornal registra e agradece pelo recebimento de um exemplar do livro “O Evangelho de Maria Madalena”, enviado por seu autor, José Lázaro Boberg.
Baseado em texto de um dos chamados “evangelhos gnósticos”, o escritor espírita paranaense busca reconstruir a verdade sobre Maria de Magdala, uma das personagens femininas mais fortes da literatura antiga e que oferece boas reflexões a partir das teorias espíritas. Boberg levanta questões como estas: O que dizem os outros evangelhos sobre Maria Madalena? Teria sido ela esposa de Jesus? Teria sido prostituta, como chegou a se propagar na história do cristianismo? Seria ela a verdadeira fundadora do cristianismo?
No livro também são questionados aspectos da vida daquela personagem enfocados em obras mediúnicas de autores espíritas.
O lançamento é da Editora EME - https://editoraeme.com.br/ - à qual podem ser endereçados pedidos.

Medran estará na Semana Espírita de Osório
O editor deste jornal, Milton Medran Moreira, será um dos conferencistas da XVIII Semana Espírita de Osório, a se realizar no próximo mês de outubro, por iniciativa da Sociedade Espírita Amor e Caridade (Osório/RS). O evento celebra os 160 anos de O Livro dos Espíritos.

Também serão expositores: Moacir Costa de Araújo Lima, Gladis Pedersen de Oliveira e Arivelto B. Fialho.









Mediunidade – uma vivência real



Matéria do jornal O GLOBO do Rio de Janeiro, edição de 26.7.2017, com a mancheteCérebro de médium em transe ativa área mais ligada à vivência do real”, relata pesquisa na Universidade de Aachen que avaliou oito médiuns em exames de ressonância magnética.
O artigo com o resultado da pesquisa foi  publicado na revista científica Neuroimaging. Reprodução


A matéria abre com este texto:
RIO — Chico Xavier relatava ver e conversar com gente que já morreu. Para muitos, o médium – morto em 2002 - só podia ser esquizofrênico. Tudo seria criado em sua fértil imaginação. Mas uma pesquisa inédita da Universidade de Aachen, na Alemanha, examinou o cérebro de oito médiuns e constatou que, durante o transe, a área relacionada à vivência do real foi a mais ativada. O estudo, liderado pela psicóloga brasileira Alessandra Ghinato Mainieri (foto) e pelo psicólogo alemão Nils Kohn, acaba de ser publicado na revista científica Psychiatry Research Neuroimaging.
Para saber detalhes da inédita pesquisa com oito médiuns de centros espíritas brasileiros, acesse:







Jesus por Rembrandt
Jesus para o espiritismo

Marcelo Henrique – Mestre em Direito – Florianópolis, SC.

Toda tentativa de analisar o personagem Jesus sob a ótica espírita principia pelo questionamento de Kardec aos Espíritos, aposto no item 625, de O livro dos espíritos, sobre o modelo ou guia para a Humanidade planetária. A resposta, na competente tradução do Professor Herculano Pires é "Vede Jesus". Obviamente, não estamos falando de Jesus Cristo, o mito inventado pela religião cristã oficial (Catolicismo) e reproduzido por todas as que lhe sucederam no tempo, um ser meio homem meio divino, filho único (?) de Deus ou integrante do dogma da Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo), como apregoam as liturgias.

Falamos do homem, cujos registros físicos (históricos) são mínimos, mas que teria vivido há pouco mais de dois mil anos, no Oriente Médio, dono de uma filosofia de vida própria e que marcou a história humana ao ponto de dividi-la entre antes e depois de sua passagem. Jesus de Nazaré, este o seu nome. Mas é este o Jesus apresentado nas instituições espíritas? É este o Jesus referenciado nas obras pós-kardecianas, sobretudo aquelas de origem mediúnica? Cremos que não! Há uma diferença muito grande entre a realidade e a imagem que foi construída - muito fortemente em função da influência das religiões sobre o arquétipo coletivo.

Alguns dos problemas mais graves na abordagem "espírita" de Jesus já principiam pela gravidez de Maria (dita Santíssima pela tradição religiosa e, portanto, submetida a uma gestação sem ato sexual, sob a interferência do Espírito Santo), o que levou à consideração de que o carpinteiro seria um agênere, posto que detentor de um corpo não físico, mas fluídico, porquanto não teria ele suportado as dores e lacerações a que foi submetido, na paixão e crucificação.

Tais teorias nunca seriam concordes à Filosofia Espírita, porque representariam a negação dos mínimos princípios ou fundamentos básicos espiritistas. Maria e José, tidos como pais de Jesus, tiveram um relacionamento normal - como o de qualquer casal - e Jesus, inclusive, teve vários irmãos, sendo o primogênito da prole (vide a passagem "Quem são minha mãe e meus irmãos", a propósito). De uma gestação, portanto, natural e "normal", decorreu um corpo físico muito parecido com o nosso, guardadas as proporções decorrentes do distanciamento temporal entre os nossos dias e os de dois milênios atrás.
Como a fábula cristã enquadra situações aparentemente sobrenaturais (como diversas passagens evangélicas relacionadas aos feitos de Jesus e, também, todo o tétrico relato das torturas a que teria sido submetido desde sua prisão, no Horto das Oliveiras até sua crucificação no Gólgota), muitas delas teriam sido construídas e moldadas pelos doutores da Igreja, interessados na construção de um super-homem, mítico e até mitológico, dotado de superpoderes ilimitados.

Jesus foi um homem "normal" e "comum", em relação às suas características físicas. Sua distinção em relação aos demais homens (daquele tempo e até hoje), evidentemente, pertence ao plano moral, das virtudes e das características egressas de sua evolutividade espiritual. Seu principal traço é o de uma moralidade bem acima da média da população terrena de todos os tempos conhecidos, daí porque os Espíritos o teriam sugerido como referência (não a única, fique bem claro) para a esteira de progresso espiritual compatível com este orbe.

Mas, ainda que distante da maioria dos homens em termos de moralidade, não deixou de "participar" da vida encarnada como a grande maioria de nós. Sentiu dores, sofreu decepções, alegrou-se com situações favoráveis, teve amigos e relacionou-se SIM sexualmente com uma mulher - provavelmente Maria de Magdala, de cuja relação teria nascido uma criança, como, aliás, vários escritores - entre os quais, mais presentemente, Dan Brown - já referenciaram.

Incrível é que, em muitas instituições espíritas, que deveriam se pautar pela "fé raciocinada", pelo exame lógico de todas as situações e circunstâncias e pela abordagem livre e baseada nos princípios espíritas, se verifique um certo ar "pudico" quando o assunto vem à baila, como se uma (muito) provável experiência conjugal e sexual de Jesus de Nazaré pudesse diminuir o alcance de sua missão e papel perante os homens. Uma abstinência da simbiose energético-sexual não seria, nem de longe, "natural" e oportuna. Ademais, todos nós que, sob a esteira da dicção espiritual contida no item sublinhado da obra pioneira, nos espelhamos em Jesus para a construção de nossa senda evolutiva, ao buscarmos conhecer melhor o intercâmbio das relações humanas, sabemos que a sexualidade é um vértice de aprendizado espiritual e, antes de tudo, uma necessidade humana, rumo ao equilíbrio.

Mas há os que, não tão ingenuamente, pensam o contrário e tentam "importar" para o Espiritismo visões que pertencem aos dogmas das igrejas. Estes ainda não se tornaram espíritas!